A nova droga já usada nos Países da União Européia e nos Estados Unidos chega ao Brasil com custo reduzido em 2010, é o que garante o protocolo do Ministério da Saúde

O Ministro da Saúde José Carlos Temporão divulgou novo protocolo que abrirá o mercado brasileiro para a multinacional americana Gilead, fabricante do Tenofovir Desoproxila, o qual já é utilizado para o tratamento contra o vírus da AIDS (HIV). Esse protocolo garante aos pacientes diagnosticados com o vírus da hepatite B (HBV) o tratamento à base do medicamento Tenofovir, em conjunto com outros dois antivirais. O emprego dessa nova droga visa descompensar a resistência criada pelo vírus B ao longo do tempo, em média cinco anos, quando tratado somente com a ingestão da lamivudina e interferon convencional. O medicamento Tenofovir era liberado apenas para pacientes com AIDS ou com as duas doenças (AIDS e Hepatite B), será disponibilizado agora para pacientes apenas hepáticos. O doutor Alexandre Cunha, infectologista da UNB (Universidade de Brasília) fala sobre o Tenofovir, ” O uso do Tenofovir é tranquilo, quase não tem efeito colateral. O índice de cura é muito baixo, mas a doença fica controlada, ’’ disse.

Sobre a doença

Hepatite B é uma doença que causa inflamação no fígado e pode ser causada por um vírus. A forma de contágio é através de contato com secreções de pessoas contaminadas. Quando o fígado é infectado pelo vírus, fica inflamado e sensível e pode ficar muito inchado.  As partes afetadas pelo vírus podem ser destruídas pela inflamação. A Hepatite B é chamada assim pelo fato de não existir um nome científico relacionado a ela, sendo um tipo de doença séria e pode levar a morte. Existe ainda a hepatite B crônica e as pessoas infectadas por esse tipo da doença continuarão infectadas por um longo período e tem grande probabilidade de desenvolverem complicações no fígado. A hepatite B é extremamente infecciosa, podendo a mães hepáticas ou portadoras do vírus podem transmitir a doença aos seus bebês durante o parto.

As hepatites virais são doenças provocadas por diferentes agentes etiológicos, que apresentam características epidemiológicas, clínicas e laboratoriais semelhantes, porém com particularidades importantes. Transmitidas por via parenteral (compartilhamento de material perfurante, procedimentos cirúrgicos, etc.) e, sobretudo via sexual desprotegida, a leva ser considerada Doença Sexualmente Transmissível (DST).

Infecciosa, é causada por vírus que afetam o fígado e não apresenta sintomas ou evolui a ponto de ocasionar a morte antes dos vinte ou trinta anos da sua contração. Estudos justificam como já se faz com HIV, que o importante é controlar a carga viral (HBVDNA), se ela for persistentemente alta, é maior o risco de levar o paciente a um efeito colateral ou complicação grave, como cirrose ou câncer no fígado. Mas controlando a carga viral no organismo, praticamente não terá esse efeito.

Pesquisas mostram que 11,5% da população das capitais brasileiras com idade de 20 a 69 anos já tiveram contato com o vírus responsável pelo tipo B da doença. Na população de 10 a 19 anos, a incidência foi de 1,14%. Informação segundo os dados do Inquérito Nacional de Seroprevalência das Hepatites Virais.

Aproximadamente 5% a 10% dos adultos expostos ao vírus, evoluem para a forma mais crônica. Quando há o consumo de álcool e fumo, e quando associado à idade e ao histórico familiar, pode agravar com o risco de cirrose e câncer no fígado. O tratamento, ao reduzir a replicação da carga viral e o dano hepático, diminui as chances de evolução para essas doenças graves.

A vacina é uma das principais medidas de prevenção contra a doença. Após três doses, mais de 90% dos adultos jovens e 95% das crianças e adolescentes ficam imunizados. Ela é oferecida na rede pública à pessoas com até 19 anos desde 1998. Também está indicada para grupos específicos, como profissionais de saúde, independentemente da faixa etária. A vacina é encontrada também em clínicas privadas.

Pacientes futuramente beneficiados

A estudante do terceiro ano do ensino médio, Clara Venâncio Silva, 23, moradora da Cidade Estrutural, contraiu Hepatite B em uma relação sexual com um antigo namorado. Com um filho de 1 ano e marido desempregado, Clara vive em uma casa humilde tentando conciliar os estudos, a casa e o tratamento da doença. A estudante desenvolveu o tipo crônico da doença, porém a sua esperança é o novo medicamento que prometem auxiliar os portadores deste mal.

Clara se diz muito satisfeita e esperançosa quanto a essa nova solução.“Estou muito animada e com muitas expectativas quanto ao Tenofovir. Acredito que ele ajudará bastante em meu tratamento, também estou muito satisfeita quanto ao SUS por disponibilizar o medicamento gratuitamente”.

A estudante faz tratamento periodicamente no Hospital de Base de Brasília, onde recebe todas as informações e cuidados referentes à sua saúde. Após ter contraído a doença Clara passou a ter outras precauções quanto a sua rotina alimentar e a se abster de bebidas alcoólicas “antigamente comia qualquer porcaria, mas como minha imunidade baixou com a doença agora tenho que ter todo um cuidado com o que como, fora parar de beber o que foi mais difícil pra mim,” afirma. Toda a ajuda financeira que a jovem possui provém de seus pais, que arcam com os custos de sua casa e de algumas despesas relacionadas ao seu tratamento.

Clara afirmou que depois de ter sido infectada, passou a dar muito mais importância ao uso do preservativo, até mesmo para a preservação de seu marido, o qual apóia a estudante em seu tratamento. Ela aponta em sua declaração que não possuía conhecimento sobre os meios de transmissão da doença “nem sabia o que era Hepatite B, muito menos os métodos de transmissão, pensei que a única doença que eu poderia pegar seria a AIDS ou no máximo uma gravidez indesejada,muito menos sabia que podia me prevenir me vacinando, só quero me livrar logo disso e poder passar todo o conhecimento que agora tenho sobre a doença pro meu filho”.

A declaração de Clara ressalta a importância das informações quanto às doenças sexualmente transmissíveis para os jovens nas escolas e na educação familiar. Outro ponto relevante quanto a Hepatite B é a possível transmissão da mãe para o filho.

O custo do medicamento

Após negociação, o Ministério da Saúde reduziu em 31,1% o valor pago pelo comprimido de Tenofovir, negociação que foi finalizada em outubro. Passou de US$ 2,54 para US$ 1,75, desta forma reduzindo o gasto de R$ 42,4 milhões para o orçamento de 2010. Com essa negociação, parte deste recurso poderá ser destinado para atender os portadores de hepatite B crônica no próximo ano aumentando a eficiência do gasto, sem grande impacto no orçamento. Estudos internacionais mostram que o Tenofovi, usado na terapia contra Aids no país desde julho de 2003, apresentou boa resposta para combate com o vírus. “ Tenofovir tem alta potência para suprimir o vírus da hepatite B. Além disso, tem uma boa barreira genética. Quer dizer, até hoje não há registro de resistência contra ela. Outra vantagem é que basta tomar um comprimido por dia” conforme dito por Mariângela Simão, diretora do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

Junto a Universidades Federais e Estaduais, Secretarias de Saúde Estaduais e Municipais o MS tem feito um inquérito nacional de base populacional nas capitais brasileiras para fornecer a dimensão da prevalência dessa infecção, por macroregional. Mas isso não garante a realidade, uma vez que os municípios não entram nesse inquérito, como afirmam profissionais da Secretaria de Saúde do Distrito Federal.

Com essa postura, se busca blindar a população da infecção horizontal, adquirida a partir de terceiros, já que o grau de transmissão é cem vezes maior que o próprio vírus da AIDS. Por outro lado há evidente preocupação do Ministério da Saúde em reduzir a transmissão vertical, que se sucede entre a gestante e seu filho, cujo controle é ainda mais delicado em virtude de que a contaminação pode ocorrer no pele-parto (pouco antes do parto), durante ou logo após.

Desde 1998 o Sistema Único de Saúde (SUS) fornece a primeira dose da vacina, que é aplicada antes do aleitamento materno, nas doze horas iniciais de vida do bebê. Até que essa criança adquira seu anticorpo, ela deve receber a imunoglobulina que é um anticorpo pronto, e o risco de contaminação cai para praticamente zero.

A distribuição das hepatites virais é universal, sendo que a magnitude dos diferentes tipos variam de região para região. No Brasil também há grande variação regional na prevalência de cada hepatite. “A endemicidade do HBV no Norte é alta, e a cobertura lá é 100% por que há muitos infectados. O MS trabalhou para imunizar a população e prevenir as gerações futuras”, afirma a chefe do Núcleo de Hepatites Virais da Secretaria de Saúde do Distrtito Federal, a Dra. Sônia Geraldes.

Assim como para a prevenção da AIDS, o Ministério da Saúde vai intensificar seus materiais informativos de prevenção para Hepatite B durante o carnaval. Salões de beleza e estúdios de tatuagem também serão espaços estratégicos para a divulgação de informações sobre a prevenção da doença.

Por Fernanda Faleiro, Oda Paula e Sávia Cristina

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